
Amada Clarisse,
hoje resolvi ousar, falar sobre algo que desconheço no momento. Felicidade. Essa palavra soou indiferente em meus ouvidos depois que você partiu, pois sua ausência me trouxe dor, tudo se converteu em dor. Os meus sorrisos são doídos porque toda vez que sorrio, eu desejo que fosse você os assistindo. Toda vez que abraço, eu fecho os olhos e imagino você, desejando suas mãos finas me tocando como plumas enquanto envolve minha cintura, mas nada se compara ao seu suave toque. Portanto, não encontrar-te em outros braços, me traz dor. Sabe Clarisse, as coisas se complicaram, eu vejo um vazio no calendário, no dia do nosso aniversário. Há um vazio à tarde quando o relógio põe-se a badalar as dezoito horas, pois era exatamente nesse momento que acordávamos juntos, atrasados para um café qualquer que ousamos chamar, café da tarde, mesmo sendo noite, mas sempre fomos isso, ousadia, e foi dessa lembrança que resolvi lhe escrever hoje, Clarisse, ousando falar de felicidade, mesmo que eu tenha – como de costume – fugido um pouco para falar da minha dor. Eu sempre faço isso e mesmo assim você sempre foi ouvido aberto para minhas lamúrias, eu lhe enchia de feridas, pois você fazia de minhas dores, as suas. Menina frágil.
Clarisse… Se eu fosse menos egoísta, você ainda estaria aqui. Tenho certeza que estaria. Se eu tivesse me preocupado mais com o que minhas lágrimas lhe causariam, eu teria chorado menos. Infelizmente, eu só descobri que você era maior do que todas as outras dores depois que deixei você escapar por entre meus dedos. Se eu tivesse me entregado inteiramente a ti, todas as minhas outras dores iriam embora. Mas meu coração se tornou uma pedra de gelo depois de tantas desilusões e quando chegou a vez de te amar, eu amei pela metade. Sempre erro, você sabe.
Quase me esqueci de falar sobre a felicidade.
Minha felicidade é você Clarisse. Descobri isso tarde da noite da nossa vida. Poderíamos ressuscitar. Poderíamos acabar com o eu e com o você e transformar em nós novamente. Poderíamos ter tudo se você voltasse, nós iríamos terminar aqueles filmes que assistíamos pela metade, porque quando estava perto do fim nós estávamos entre beijos doces. Tomaríamos o meu café amargo, posto na caneca de modo desajeitado. Conversaríamos próximos às borboletas. Faríamos passeios de mãos dadas em volta daquele lago que possui as águas da cor dos seus olhos. Ah, Clarisse… Um sorriso acabara de brotar em meu rosto. Fui falar de nós e conseqüentemente, finalmente, falei da minha felicidade.
Quanto arrependimento, meu amor… Quanta nostalgia!
Sinto muito por ter resfriado seu jardim, despetalada Clarisse.
Com ousadia de lhe chamar de amada,
Adriano.
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