segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Fazia-se escrava de si mesma. Agarrada às mesmas dores. Apegada aos mesmos maus amores. Acostumada com a mesma rotina. Apoiada nos mesmos ombros. E sem razão, cobrava surpreendimento do destino. Mas seus olhos, agora, foram abertos, e seu espírito finalmente liberto. Aprendeu, amadureceu, mas ainda não cresceu. Continua sendo a pequena de seus pais, a mais baixinha entre os amigos. Em outro contexto, ela é gigante, tem um coração enorme, um colo que cabe a todos, só perdendo pro colo de mãe. Aprendeu que para ganhar abraços deve-se abraçar. Aprendeu que deve-se viver o hoje. Conseqüências? Ela as deixa construir o futuro. As boas não conta vantagem, aquieta e agradece a Ele em silêncio. As ruins, ela destrói, constrói, conserta, tira, puxa, coloca e desloca. Ninguém a entende, mas ela tenta converte-las em algo bom. Nada é um mar de rosas, ela chora, nos cantos, mas já aprendeu que isso não é um erro, é uma necessidade. Precisa colocar tudo para fora, para dar espaços aos sorrisos. Porque, como já lhe contaram: quem plantou chorando, vai colher sorrindo. Então a pequena-gigante já aprendeu que haverão quedas, mas para todas elas haverão vitórias. Haverão dias sem luz, mas para cada um deles haverão anos iluminados. Haverão laços de convertendo em nós, mas para cada enforcamento, haverá a sensação de liberdade. Ninguém veio somente para sofrer, e foi entre tombos e glórias que aprendeu. E descobriu que enviar cartas de exigências ao destino não mudam nada. Ela mesma deve reciclar seus sentimentos, purificar sua alma e fazer acontecer. Muita coisa ruim havia acontecido, e mesmo assim, lucrou. Ganhou experiência. Estaria forte, a partir de agora pra suportar qualquer dor, e nada mais a abalaria. Agora só falta crescer em comprimento, mas para ela, e para quem a rodeia, o tamanho do coração, já basta. Passeia cantando, sorrindo. Reencontrando seus pedaços e remontando-se. Está feliz plenamente, finalmente, novamente.

Amada Clarisse,

hoje resolvi ousar, falar sobre algo que desconheço no momento. Felicidade. Essa palavra soou indiferente em meus ouvidos depois que você partiu, pois sua ausência me trouxe dor, tudo se converteu em dor. Os meus sorrisos são doídos porque toda vez que sorrio, eu desejo que fosse você os assistindo. Toda vez que abraço, eu fecho os olhos e imagino você, desejando suas mãos finas me tocando como plumas enquanto envolve minha cintura, mas nada se compara ao seu suave toque. Portanto, não encontrar-te em outros braços, me traz dor. Sabe Clarisse, as coisas se complicaram, eu vejo um vazio no calendário, no dia do nosso aniversário. Há um vazio à tarde quando o relógio põe-se a badalar as dezoito horas, pois era exatamente nesse momento que acordávamos juntos, atrasados para um café qualquer que ousamos chamar, café da tarde, mesmo sendo noite, mas sempre fomos isso, ousadia, e foi dessa lembrança que resolvi lhe escrever hoje, Clarisse, ousando falar de felicidade, mesmo que eu tenha – como de costume – fugido um pouco para falar da minha dor. Eu sempre faço isso e mesmo assim você sempre foi ouvido aberto para minhas lamúrias, eu lhe enchia de feridas, pois você fazia de minhas dores, as suas. Menina frágil.

Clarisse… Se eu fosse menos egoísta, você ainda estaria aqui. Tenho certeza que estaria. Se eu tivesse me preocupado mais com o que minhas lágrimas lhe causariam, eu teria chorado menos. Infelizmente, eu só descobri que você era maior do que todas as outras dores depois que deixei você escapar por entre meus dedos. Se eu tivesse me entregado inteiramente a ti, todas as minhas outras dores iriam embora. Mas meu coração se tornou uma pedra de gelo depois de tantas desilusões e quando chegou a vez de te amar, eu amei pela metade. Sempre erro, você sabe.

Quase me esqueci de falar sobre a felicidade.

Minha felicidade é você Clarisse. Descobri isso tarde da noite da nossa vida. Poderíamos ressuscitar. Poderíamos acabar com o eu e com o você e transformar em nós novamente. Poderíamos ter tudo se você voltasse, nós iríamos terminar aqueles filmes que assistíamos pela metade, porque quando estava perto do fim nós estávamos entre beijos doces. Tomaríamos o meu café amargo, posto na caneca de modo desajeitado. Conversaríamos próximos às borboletas. Faríamos passeios de mãos dadas em volta daquele lago que possui as águas da cor dos seus olhos. Ah, Clarisse… Um sorriso acabara de brotar em meu rosto. Fui falar de nós e conseqüentemente, finalmente, falei da minha felicidade.

Quanto arrependimento, meu amor… Quanta nostalgia!

Sinto muito por ter resfriado seu jardim, despetalada Clarisse.

Com ousadia de lhe chamar de amada,

Adriano.

Na mão esquerda, Jeniffer segurava uma garrafa de vodka. Na direita, levava a ignorância, que era sua melhor amiga desde que todos a deixaram. Pode até ser considerada pobre menina por ter sido condenada à solidão, mas na verdade, pobre coitado mesmo é quem cruza seu caminho. Suas palavras saem de sua boca como facas, seus maus tratos aos outros são como álcool para ferida aberta. Quem a conheceu vê como mudou, e com certeza gostariam de ter a boa Jenni de volta. Aquela menina doce que tinha toque de fada e olhar de criança levada havia perdido a inocência no momento em que a vingança lhe deu a mão, tudo que queria era dar o troco em quem a fez sentir-se menor. Agora andava sozinha pela ruela escura como se fosse rato de rua. Jeans gastado, maquiagem borrada, blusa amarrotada... Pobre menina, onde se enfiou? Deixou que os maus sentimentos perdurassem e se afundou na maré da ignorância, tornou-se mulher de palavras curtas, de coração gélido. Desfez-se do amor, desfez-se da bondade. Ela tem consciência de que ao pódio onde se encontra não tem nada para acrescentar-lhe, e mesmo assim ela gosta do maltrato como quem faz promessas aos pecados. Seu perfume que cheirava a inocência agora trazia um odor de cigarro. Que futuro teria Jeniffer? A resposta não era do conhecimento de ninguém... Não mais. Seu futuro promissor havia sido jogado no lixo, sem piedade. A única coisa que eu desejo, é que ela encontre alguém que ame de verdade e que a desarme. Espero que suas armaduras caiam, e ela se desabe em lágrimas – pondo para fora todas essas mágoas guardadas, pondo para fora todas as mentiras que a compõem agora. E que deixe a água lavar, e que deixe o vento levar.

Que ela tropece no amor um dia que estiver andando nessas ruelas.

[...]

- Moça, está escorrendo angústia de suas palavras.

- É sempre assim.

- E por quê?

- Falta amor. Falta muito amor, e conseqüentemente falta alguém.

- Porque cobras amor se tu não o tens? Antes de pedi-lo tu tens que distribuí-lo. Sejas amorosa com a vida e ela retribuirá.

- Dá-me um motivo para suicido como tal dito, moço. Dei amor demais, decepcionei-me. Quantas vezes eu fiz tudo por alguém e esse alguém não fez por mim? Eu sou o resultado de uma mulher que foi muito magoada. Ah, como sofri. Agora opto pela ignorância, é prática e rápida. Evito mágoas da minha parte.

- Acertaste. Evitas apenas da tua parte.

- É o que me importa.

- Mergulhaste no egoísmo... Não sinto pena de ti, mas sim de quem lhe esbarrar. Estou grato por ter me poupado de qualquer insulto. Estou à retirar-me. “Que tropece no amor” quando estiver no auge da sua falsa glória solitária. Adeus.

Eu pensei ter te superado, mas só pensei. Hoje no comecinho da tarde eu me sentei na cama e fiquei pensando em como as coisas haviam mudado depois que eu construí um muro em volta do meu coração. Não que eu tenha me isolado do mundo. Eu só havia resolvido que você não entraria nele. Comecei a lembrar das tardes que eu escrevia cartas com o seu nome no topo da folha. Cartas essas que nunca chegavam às suas mãos. Tomei a decisão de relê-las. Considero esse ato como um grande avanço, já que a muito tempo eu ando evitando olhar, tocar ou sentir coisas que me lembrem você. Respirei fundo algumas vezes antes de abrir a gaveta. Lá estavam elas… As provas de um amor platônico-sofrido, ou melhor dizendo, lá estavam as cartas que lhe escrevi. Senti como se no meu coração o muro estivesse se derrubando. Esse acontecimento me provou que eu não havia o superado. Fui tola em achar que seria fácil amolecer um sentimento que já havia se tornado maior que eu. Li cada linha, cada palavra, cada amor que explodia daquelas frases. Desde a primeira carta, escrita no dia dezessete de dezembro do ano passado - o início do meu afogamento em um sentimento que eu jamais havia sentindo. Até a, dita, última, do dia vinte e quatro de julho deste ano - o dia em que eu me livrei de você… Bem tentei… Não consegui livrar-me. Nesse exato momento meu coração aperta, ele fica pequenininho para combinar com a porcentagem de chances que eu tenho de te esquecer. Eu chorei ao lembrar que eu não havia nenhum momento para chamar de “nossos doces dias”, eu não tinha como lembrar da sua mão nas minhas, porque nunca te toquei. Eu não tinha nada seu para chamar de meu… Na verdade só lembranças quebradas, pois elas nem se quer tinham você. Somente vinha na minha mente os momentos que dediquei à ti.

Eu não te esqueci, e estou aqui, fazendo o retorno, voltando ao início, voltando àqueles momentos em que você era tudo. Estou voltando a lhe escrever cartas.

Com carinho, aquela que, se você deixasse, cuidaria de você dia e noite.

Destinatário: Ao bom, velho e que me torna masoquista, amor platônico